A criança não é vítima do sistema educacional holandês

 In Brasil Holanda, Clipping

Quando minhas filhas eram ainda bebês, já ouvia dizer que aqui na Holanda, os pequenos já são direcionados desde a escola básica, a percorrerem um caminho pré-determinado. Bem diferente do Brasil, onde os jovens estudam em escolas cujo o potencial de cada um é mostrado no decorrer dos anos, com aprovações ou reprovações. O certo é que lá em 1a instância, é possível todos tentarem uma vaga em alguma faculdade, através do vestibular. Na Holanda não é bem assim, o estudante será avaliado ano a ano a partir do começo da vida acadêmica básica no grupo 0/1 com 4 anos de idade. E no final da escola básica, no grupo 8, a escola direcionará o aluno para próxima etapa escolar, a média (ou antiga ginasial).

Na época em que a minha filha mais velha entrou para a escola básica equivalente à escola primária no Brasil, eu sentia um certo desconforto, ao saber que dentro de alguns anos, ela seria destinada a determinada escola média e, com apenas 12 anos o destino da criança já começaria a ser traçado. Se o aluno tirasse boas notas, e fosse disciplinado, ele conseguiria uma espécie de atestado o encaminhando para um nível onde seria possível cursar a universidade, caso contrário, se o estudante fosse regular, sem uma boa performance, ou quem sabe, uma capacidade menor em trabalhar com o raciocínio, ele seria e dirigido para uma outra escola, onde futuramente o trabalho seria voltado mais para o manual, sem usar muito o intelecto. Esse aluno não irá para nenhuma faculdade, somente se for por mérito próprio, estudando a fundo até elevar ao nível requerido, tendo a possibilidade de tentar uma faculdade, através de uma loteria.

Acalmem-se mães brasileiras na Holanda, com o passar do tempo, essa visão que eu tinha frente à educação antecipada holandesa foi se modificando. Como eu, as mães vindas de outras nacionalidades devem se interessar mais pelo assunto, para entender como tudo funciona por aqui. Resolvi dar uma chance ao sistema holandês, e devagarinho, descobri que a própria criança traça o seu destino. A escola apenas reflete o que cada uma produz. A meninada será avaliada por profissionais competentes. Existem os casos de crianças com hiperatividade, autistas ou aspergers, essas são casos à parte, já ouvi dizer que o sistema aqui avalia essas diferenças com certa imprudência.

Hoje a minha filha está com 14 anos, cursando a 3a série da escola média. Como ela própria me disse, ela se sente bem estando numa escola que atende perfeitamente o perfil que ela foi desenvolvendo ao longo dos anos da escola básica. Na classe atual, ela trabalhará com o ego, os professores a ajudarão a valorizar os seus pontos fortes, as suas preferências, os seus talentos. E passarão também a identificar as dificuldades, evitando fracassos futuros. O aluno dessa classe aprenderá a se conhecer melhor, para que no meio e/ou final do periodo desse ano, ele esteja mais apto a fazer uma escolha pela área de estudo que deve seguir. É tudo muito cedo, muito rápido, mas, acreditem, a criança parece ser um robozinho manipulado por uma sociedade inflexível. Mas felizmente, não é bem assim, a verdade é que o aluno é que vai decidir seu destino, pelo menos na maioria dos casos. Só aviso que se houver divergências entre a opinião da escola e dos pais, prevalecerá o palpite final da escola.

Com a minha filha caçula, aconteceu o mesmo processo: a escola básica determinou o nível de escola média que ela deveria seguir. Ela está agora na 2a série, e segue muito bem na escola escolhida. Ambas, ainda não sabem o que querem ser… mas, pelo menos sabem do que gostam, e quais matérias dominam melhor. Sinto confiança própria em cada uma delas. Elas percebem o que podem mudar, e o que não tem como mudar. As duas fazem os exerícios de casa sozinhas, são auto-confiantes e, quando não entendem algo, pedem ajuda para nós.

Então, dar crédito a uma forma de ensinar diferente da nossa cultura, já é um passo positivo. Entenda-se que antes de todo um sistema cultural distante do nosso, existe a criação bi-cultural em casa, usando-se um 2o idioma, muitas vezes falado no dia-a-dia. Existe toda uma compreensão estreitada da cultura brasileira entre a mãe e o filho nascido num país que não é nosso. Nossas crianças não serão robôs, ao contrário, terão múltiplas maneiras de identificarem problemas, acredito eu, até pela questão de serem bilíngues. O horizonte é amplo e repleto de possibilidades. Vitimizar não combina com essa história.

 

Fonte:

Brasileiros na Holanda

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