Importantes registros

O uso de material fotográfico histórico foi imprescindível na construção do Parque Histórico de Carambeí, os registros visuais foram uma importante fonte no trabalho de reprodução arquitetônica da Vila Histórica, espaço museal dedicado a rememorar a dinâmica social, econômica e cultural da antiga colônia.

Deste modo, a mostra fotográfica digital “Prato Cheio – A alimentação na colônia holandesa de Carambeí em fotos (1911-1960)” remonta a utilização dessa valiosa ferramenta nos estudos do passado, neste caso em específico os registros fotográficos das práticas alimentares do imigrante holandês.

As máquinas fotográficas portáteis eram um artigo de luxo no Brasil do final do século XIX e início do século XX – mesmo que essas tenham sido trazidas por imigrantes europeus, o custo de revelação e manutenção do equipamento ainda eram muito caros e pouco acessível para grande parte dos brasileiros, por esse motivo – em sua grande maioria, fotografias históricas revelavam momentos de importância para o indivíduo, eventos sociais como casamentos, batizados, noivados, aniversários, bodas, datas cívicas ou marcantes. A vida cotidiana e a sua banalidade rotineira pouco eram registradas nesse período, pois a fotografia servia justamente para “eternizar” um momento marcante.

Então por qual motivo há dezenas de fotografias da comunidade de imigrantes holandeses em momentos triviais como a alimentação e as suas práticas laborais? É esse questionamento que essa mostra fotográfica busca apresentar.

A cultura alimentar em Carambeí

Quando o alimento chega à mesa, dificilmente se questiona os significados que ele pode carregar, por ser um ato de sobrevivência essencial do cotidiano e por esse motivo torna-se um elemento naturalizado. No entanto, o cuidado na produção do alimento, a elaboração de receitas, a seleção de ingredientes, técnicas de preparo, utensílios de cozinha, louças, talheres e comportamentos dizem muito a respeito desses significados quase que ocultos, e podem evidenciar aspectos e hábitos culturais historicamente construídos em um grupo.

Comida é cultura, destaca o historiador Massimo Montanari, comida é cultura quando produzida, preparada e consumida. Portanto a comida tem um forte apelo comunicacional e expressa o sentimento de determinado pertencimento social.

Diga o que tu comes e te direi quem és

Podendo ser analisada sob vários vieses, a alimentação e a comida podem dizer muito sobre a região em que determinado alimento é produzido e consumido, pode ser analisada sobre a ótica do trabalho, relações sociais, nutricionais e até mesmo como um poder simbólico, mas acima de tudo, a alimentação e seus processos de preparo, revelam a identidade de um povo.

As práticas alimentares, os hábitos e costumes à mesa e a própria cultura alimentar seguem uma estrutura complexa, formadas ao longo da história, são construídas culturalmente e socialmente e dependem de diversos fatores para se manifestar, como região, clima, religião, condições socioeconômicas, disponibilidade de alimentos, restrições, entre outros.

No caso dos imigrantes holandeses em terras brasileiras, mais especificamente em Carambeí, a cultura alimentar foi moldada entre transformações e adaptações, devido principalmente a disponibilidade de insumos alimentares na região.

A princípio os imigrantes foram forçados a se adaptar a dieta vigente local, o conhecido e tradicional feijão com arroz e outros alimentos de tradição luso-brasileira com forte influência tropeira fizeram parte do cardápio cotidiano.

Logo que conseguiram se estabelecer, dando início às atividades econômicas agroalimentares, pautadas principalmente na prática láctea, tradicional dos Países Baixos, os imigrantes conseguiram adaptar na nova dieta elementos de pertencimento à terra natal, como o queijo, e os preparos a base do leite, assim como a inserção de legumes e frutas à dieta.

Desta forma a culinária da então colônia vai se moldando e se transformando, com o fluxo migratório europeu para o Brasil da primeira metade do século XX, a culinária na cidade de Carambeí foi marcada por sofrer fortes influências culturais de diversas nacionalidades: alemã, italiana, portuguesa, polonesa, indonésia e principalmente a holandesa, refletindo uma identidade regional herdada de imigrantes e possuindo características bem específicas que se destacam na região.

Logo, o discurso passa de uma simples identificação culinária para a construção de uma herança alimentar e cultural da imigração holandesa em Carambeí.

Comida é

CULTURA

O que comiam os imigrantes holandeses e seus descendentes logo que chegaram ao Brasil? E porque comiam? Qual era a sua alimentação no âmbito do privado, no cotidiano e no dia-a-dia? O que preparavam em eventos festivos e cívicos nas décadas de 1940, 1950 e 1960? O acervo fotográfico selecionado para essa mostra digital mostra momento de comensalidade entre a comunidade de imigrantes e seus descendentes e também a interação com a população luso-brasileira em eventos festivos. 

Quando falamos em alimentação não estamos falando apenas no ato de consumir um alimento, a alimentação se desdobra sobre quatro eixos: produção, distribuição, preparo e consumo, desta forma, as fotografias selecionadas para integrar a mostra seguem esses direcionamentos.

Produção

A produção agroalimentar em Carambeí baseou-se principalmente na prática láctea, esta prática era tão importante que seus processos, como as horas pré-definidas para ordenha acabavam por moldar a vida social da colônia. Os horários de chá e café, almoço e jantar eram definidos a partir dos horários de ordenha.

Da produção láctea se aproveitava tudo, do soro do leite, usado para fazer pudim e mingau à nata, usada na produção de confeitos e panificados, além de servir como acompanhamento. O leite, queijo e manteiga foram por muitos anos a base dos processos alimentares.

As atividades agrícolas logo foram ganhando força, a princípio plantava-se para subsistência, hortas e pequenas plantações de algum alimento sazonal, logo se viu a necessidade de plantar para alimentar o gado, algodão, batata-doce e nabo eram as lavouras mais frequentes nesse sentido.

Distribuição

Toda a produção de queijo, manteiga e leite era destinada aos centros urbanos próximos, principalmente Ponta Grossa, Castro e Curitiba. No início da imigração, o leite era transportado da seguinte maneira, rapazes da colônia partiam com a carroça lotada de garrafas de leite para Ponta Grossa. Junto ao rio Pitangui encontravam-se com os Tammenheim, que vinham de Ponta Grossa, da mesma maneira, mas com garrafas vazias. Carregavam as garrafas com leites e devolviam as vazias.

As possibilidades no mercado para a entrega de queijo e de manteiga eram, bem reduzidas. Produtos lácteos eram considerados um luxo, que só os mais abastados podiam usufruir. A maior parte do queijo era vendida em São Paulo, a manteiga e o restante do queijo eram vendidos em Ponta Grossa e Castro, em Ponta Grossa havia inclusive um ponto de venda da cooperativa. O transporte de todo esse alimento era feito de trem, carroça e posteriormente um caminhão Ford 1929.

Preparo

Os imigrantes trouxeram consigo técnicas e tecnologias alimentares, do preparo da terra para o plantio à utensílios e equipamentos de cozinha. As receitas dos pratos também vieram de livros e cadernos de receitas passados de gerações em gerações, assim como as próprias técnicas na fabricação dos produtos derivados de leite: o queijo e a manteiga, que possuíam características distintas dos produzidos anteriormente no Brasil.

Consumo

A cultura alimentar moldada na colônia seguiu um processo de sincretismo, sendo assimiladas outras práticas alimentares aos dos imigrantes holandeses. Na dietética do grupo eram comuns: pão, queijo, soro de queijo, feijão preto com arroz e mingau, os almoços geralmente constituíam também batatas, legumes e verduras. Outro elemento em abundância eram as frutas: laranjas, bananas, abacaxis, melancias, maçãs, ameixas e peras, além das frutas nativas do campo.

Outra adaptação no consumo dos imigrantes holandeses e seus descendentes foi a incorporação do churrasco, em dias festivos, celebrações ao ar livre e datas cívicas, era comum consumir churrasco, a especialidade era alcatra no espeto, chamada popularmente de “orelha de elefante”. Esses eram assados em grandes valas no chão e servidos com a carne em espetos de madeira cambuí.

Essa prática é caracterizada pela herança cultural da presença tropeira na região, sendo muito apreciada pelos luso-brasileiros. A tradição logo caiu no gosto do grupo e era uma forma de interação com a comunidade local e os demais grupos étnicos, pois esses eventos movimentavam toda a colônia.

No espaço privado, no aconchego do seu lar, os imigrantes comungavam das tradições alimentares neerlandesas: erwtensoep (sopa de ervilhas), stamppot (uma espécie de purê de batata com hortaliças e embutidos), hutspot (guisado de batata com cenoura), kruidkoek (bolo de especiarias) e honingkoek (bolo de mel) faziam parte do cardápio e eram mesclados aos já assimilados pratos brasileiros.

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